Análise Funcional do Filme e Livro: Eu Christiane F., Drogada e Prostituída

Análise Funcional do Filme e Livro: Eu Christiane F., Drogada e Prostituída
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A análise funcional implica no exame das relações funcionais de um organismo com seu meio, tanto interno como externo. Segundo Skinner (apud Farias, 2010, p. 278) as variáveis externas, das quais o comportamento é função, dão margem ao que pode ser chamada de análise causal ou funcional.

A descoberta dos fatores ambientais que contribuem para que os comportamentos problemáticos se mantenham é a chave principal de todas as avaliações comportamentais, independente da etiologia que tenha gerado ou da história de seu desenvolvimento, isso porque, é com base no levantamento desses fatores que se planeja a intervenção que processa dentro de um contexto. Em síntese, buscam-se no ambiente os antecedentes e os responsáveis pelo desenvolvimento da situação problema (SILVARES, 200, p. 200).

Eu Christiane F., drogada e prostituída.

Resumo da obra

Christiane F é uma obra escrita pelos jornalistas Kai Hermann e Horst Rieck, baseada em fatos reais, que foi adaptada para o cinema. Conta a história de uma adolescente que se envolveu com drogas, começou com maconha, haxixe, até ser usuária de heroína. Para conseguir as drogas submetia-se a qualquer coisa, inclusive prostituir-se.  

Por conseguinte, quando uma cena dessas é vista, logo é criticada. Os valores pessoais vêm à tona e o preconceito torna-se o principal assunto. Mas, o que levou Christiane F a se envolver com as drogas?

Análise funcional da obra

Christiane cresceu em uma família humilde, porém, nunca lhe faltara nada. Os pais mudaram-se para Berlim à procura de oportunidades melhores de trabalho, porém, não obtiveram muito êxito. A mãe queria o melhor para as filhas e o pai pouco ligava, sendo descrito por ela como um petulante vaidoso que só queria saber dos amigos, do carro e de status. O mesmo pedia para não chamá-lo de pai na frente de seus amigos; não queria que eles soubessem nem que era casado.

O pai não trabalhava, apenas a mãe. Ele bebia e agredia a mãe e Christiane. Com o passar dos anos os pais se separaram, sendo que ele nunca mais voltou a visitar, enquanto isso, a mãe trabalhava mais ainda e nunca conseguia ver a filha. Christiane já tinha 12 anos e precisava de amigos, conheceu uma turma que fumava, então, para ter amigos começou a fumar maconha.

Sua mãe arrumou um namorado, e logo a aproximação das duas diminuiu mais ainda. Desse modo, para pertencer ao grupo, submeteu-se a drogas mais pesadas, como haxixe e heroína, porém, não bebia pois não queria ser como seu pai.

A adolescente se apaixona por Detlef, também usuário de drogas, e ambos fazem de tudo para conseguir dinheiro para comprar drogas. A mãe só descobre que Christiane se drogava depois que ela se tornou viciada.

Percebe-se que a protagonista da obra foi abandonada afetivamente por seus genitores, o pai por não mais visitar a filha e a mãe por não ter tempo para dedicar-se à sua função materna. O primeiro vínculo afetivo que um ser humano conhece é o familiar, em especial a afetividade materna. O vínculo afetivo entre mãe e filho permite que este se sinta valorizado e acolhido com amor. Para Mussen (1972, p.111):

As relações iniciais mãe-filho, da mais alta  importância na modelação da personalidade e ajustamento de uma criança, centram-se em torno de necessidades e atividades específicas - por exemplo, alimentação, treinamento nos atos de higiene pessoal, curiosidade e exploração.

A relação positiva entre mãe e filho estimulará atitudes sociais favoráveis à criança com a sociedade onde vive. Nesse sentido, a interação da criança com a mãe constitui a base para as suas reações com os outros (MUSSEN, 1972). Por outro lado, a privação de afeto na primeira infância pode resultar em desajustamentos temporários ou duradouros, ou seja, bebês criados em um ambiente sem afeto tendem a ser infelizes emocionalmente e perturbados. Segundo Erikson (apud MUSSEN, 1972) as primeiras interações da mãe com seu filho estabelecem os alicerces para o desenvolvimento infantil de um sentido de confiança ou desconfiança perante o mundo. A afetividade como desenvolvimento cognitivo da criança é construída e modificada de acordo com as relações com o outro. Segundo Denis e Oliveira (1994 p.83-84).

As emoções estão presentes quando se busca conhecer, quando se estabelece relações com objetos físicos, concepções de outros indivíduos. Afeto e cognição constituem aspectos inseparáveis, presentes em qualquer atividade, embora em proporções variáveis. A afetividade e a inteligência se estruturam nas ações e pelas ações dos indivíduos. O afeto pode, assim, ser entendido como uma energia necessária para que a estrutura cognitiva passe a operar. E mais: ele influencia a velocidade com que se constrói o conhecimento, pois quando as pessoas se sentem seguras, aprendem com mais facilidade.

No livro, pode-se perceber o quanto Christiane não gostaria de estar nas drogas e que só se envolveu pela carência de afeto. Há relatos da personagem se sentindo muito feliz quando, durante suas férias, foi passear no sítio de sua avó materna:

"Por outro lado, estava feliz de rever jovens que nem sabiam o que eram drogados, andar a cavalo, nadar, etc., com efeito, não sabia mais quem eu era" (p.105).
"Imediatamente restabeleci o contato meus primos e outras crianças da minha idade. Eram realmente crianças como eu ” ( p.106).

Nessas passagens, a protagonista reconhece ser uma criança, sente falta da família e de viver na inocência que fora perdida por causa das drogas.

"Pensava que poderia pedir a minha avó para me deixar ficar com ela" (p.108). Christiane F reconhece que viver na inocência do campo era o melhor para ela, reconhecia que não se drogar era o certo, mas, diante de todos os sentimentos de solidão, a droga era seu afago, seus amigos e família.

"Eles faziam tudo o que podiam para agradar-me" (p.114). Os  amigos usuários de drogas cuidavam da menina, ela se sentia amada, protegida e acolhida, já que não tinha isso de seus pais.

Sem relação afetiva não existe motivação. Sem o afeto familiar, o indivíduo se desenvolve, muitas vezes, de modo fragilizado, “a afetividade facilita o desenvolvimento de consciência, e a internalização de normas sociais, já a rejeição parental contribui para o desenvolvimento de atitudes agressivas e delinquentes”.    (GRUSEC e LYTON apud HURTZ, 2002).

Eventos antecedentes

Resposta

Evento consequente

  • Rejeição afetiva, falta de amigos

  • Sentimento de abandono dos pais

  • Sentimento de querer ser aceita e vista pela sociedade

  • Afastamento da família

  • Envolvimento com drogas

  • Dependência química

Sobre o Autor:

 Cristiane Venzke Nogueira - professora da Rede Estadual, formada em Letras, pos graduada em ensino de Lingua espanhola, educação especial e Psicopedagogia, atualmente estudante de Psicologia

Referências:

HUTZ. C.S. Situações de risco e vulnerabilidade na infância e na adolescência: aspectos. São Paulo. Casa do Psicologo. 2002.

MUSSEN, Paul. Desenvolvimento psicológico da criança .Zahar, Rio de Janeiro, 1972.

FARIAS, A.K. Analise comportamental clínica: aspectos teóricos e estudo de caso. Porto Alegre. Artmed. 2012.

SILVARES, E.F de M. Estudos de caso em psicologia clínica comportamental  infantil. Campinas SP. Papirus 2000

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