Comer, Rezar, Amar de Elizabeth Gilbert

(Tempo de leitura: 6 - 11 minutos)

1. Introdução

O atual artigo pretende fazer uma correlação entre o filme Comer, Rezar, Amar, uma adaptação ao cinema do best-seller autobiográfico de Elizabeth Gilbert, com o posicionamento existencial das aulas ministradas pelo professor gioavanetti.

Elizabeth Gilbert interpretada no filme por Julia Roberts é uma novaiorquina que parece ter tudo na vida, mas que se sente insatisfeita em sua vida pessoal e profissional. Apesar das críticas, da imprensa e de milhares de expectadores, considerando um filme tão tépido, o relato da dor da personagem e da busca por si mesma são bastante significativos para realização deste trabalho.

Portanto, serão usados trechos do livro e algumas cenas do filme, para refletirmos sobre a personagem, que apresenta as incertezas da existência humana, de modo singular, considerando suas experiências mais significativas e determinantes. Este momento de reflexão e introspecção sobre a vida e o viver, que vive a personagem, nos leva a perceber as diversas maneiras que o ser encontra para lidar com suas questões existenciais.

Imediatamente, realizou-se uma reflexão sobre como o vazio existencial se faz presente de diversas formas em diferentes culturas e civilizações. Como é comum esse sentir só, vazio e complexo que leva o ser ao crescente questionamento perante a vida, a morte e tudo que nos permeia.

2. Na Itália

É interessante, durante a leitura do livro, a observação que a personagem faz de si mesma:

“Sou uma americana de trinta e poucos anos que trabalha, acaba de passar por um casamento falido e por um divorcio arrasador e interminável, imediatamente seguido por um caso de amor apaixonado que terminou com uma dolorosa ruptura. Todas essas perdas, umas atrás da outra, deixaram em mim uma sensação de tristeza e fragilidade...” (GILBERT, 2008, p. 15).

Podemos pensar em Heidegger e seus conceitos acerca do ser aí, lançado no mundo. O Ser consciente da sua existência estabelece uma relação com o mundo e existe enquanto projeta sua vida e procura a agir no mundo de suas possibilidades. Somos livres e protagonista de nossa própria historia, num processo dinâmico de vir-a- ser, assim escolhe-se como estar-no-mundo.

O filme começa com o diálogo entre um xamã indonésio de Bali e Liz. O que provavelmente faz com que Liz venha a planejar sua jornada pela Itália, Índia e Indonésia. Em outra cena Liz conversa com sua amiga:

“Sabe o que eu senti essa manhã? Nada. Nenhuma paixão, centelha, fé, excitação. Absolutamente nada. E isso me apavora é pior que a morte... vou a Itália, depois ao ashram da guru do David na Índia e vou fechar o ano em Bali.”

Aqui a cena revela à dinâmica e o movimento que o ser faz, talvez, para a busca de sua verdade. A necessidade que temos de responder ao longo da vida, questões próprias da condição humana, que carregamos e que temos que dar conta. Um mergulho na angustia do nada. Um sentimento profundo que faz o homem despertar, e a experienciar à sua realidade, conduzindo-o a busca pelo sentindo da vida.

Na Itália o prazer da comida, dos encontros com amigos, do falar, do viver algo novo faz Liz se sentir melhor. Ela se sente livre de sua depressão. Do corpo magro e vazio ao corpo cheio de alegrias de prazeres inofensivos. No final do capitulo de sua jornada na Itália, Liz diz:

“Cheguei à Itália abatida e magra. Ainda não sabia o que eu merecia. Talvez eu ainda não saiba totalmente o que mereço. Porem o que eu sei é que, ultimamente, eu me recuperei... a maneira mais fácil, mais fundamentalmente humana de dizer isso é que eu engordei.” (GILBERT, 2008, P. 124).

Podemos pensar que apesar do contentamento, da experiência de liberdade, Liz se depara com a sua própria solidão. Em determinada cena, também na Itália, a personagem Liz, faz uma analogia de um lugar chamado Augusteum com sua própria vida, um lugar construído por Otaviano Augusto para abrigar seus restos mortais. Um lugar silencioso onde a grande cidade foi crescendo a sua volta. Nesta cena Liz diz:

“Vivemos infelizes com medo que uma mudança estrague tudo, aí, eu olhei esse lugar, o caos que ele suportou, o modo como foi adaptado, queimado, pilhado e reconstruído, e me tranquilizei. Talvez minha vida não tenha sido tão caótica, o mundo que é... e a armadilha é nos apegarmos às coisas. A ruína é uma dádiva. A ruína é o caminho que leva a transformação.”

Podemos perceber nesse pensamento da personagem Liz uma associação do sofrimento, da desordem com a transformação. Tendo a luz da consciência seu pesar e a importância de se encontrar um sentindo na dor. E, contudo, a compreensão de sua finitude.

Logo após esta cena nos deparamos com outra cena de paisagens bem opostas a ruína de Augusteum. Um belo por do sol, um lindo caminho com paisagens perfeitas e a sensação de leveza que o outono nos traz. Aqui Liz se reúne com os amigos em um dia de ação de graça e se mostra grata e emocionada. Nesta cena representando sua saída da Itália.

3. A Índia

A cena de início mostra a turbulência, o movimento talvez caótico da cidade da Índia. Neste mesmo lugar, por ironia, também esta rodeado de templos de meditação, silencio e tranquilidade. Liz é conduzida para o templo da Guru de David.

O passar dos seus dias é de trabalho e meditação. Liz não consegue tranquilizar sua mente, não consegue se conectar. Seus pensamentos são soltos e vagos. A busca pela paz parece distante. Nesta passagem do livro Liz deixa claro suas dificuldades na meditação.

“Não consigo fazer minha mente se aquietar.” (GILBERT, 2008, p. 139).

Na Índia Liz conhece Richard. Com ele vive a troca das experiências pessoais e espirituais. Aqui a busca por Deus, pela verdade sobre si mesma. A fala sobre o amor, a devoção e o silencio. Richard diz a Liz;

“Devoção é amor. Dedique-o a algo ou a alguém.”

A devoção de Liz foi entregue a Tulsi. Uma garota indiana de 17 anos que Liz conheceu no templo. Uma menina que nutre grande devoção a Deus, questionadora e rebelde em relação às tradições de sua família. Na cena do casamento de Tulsi Liz diz:

“A   você dediquei meu guri Guita. Imaginar-te feliz foi o que me fez passar por ele.”

A prática do amor, do perdão e da entrega talvez aproxime aquele que busca na   espiritualidade o conforto para as questões fundamentais da vida. Se pensarmos que a meditação é a abertura do espírito a sim mesmo, a natureza, aos outros e ao universo, podemos entender que por aqui passa o encontro com Deus. Em um dos seus artigos Dulce Critelli fala sobre a fé como um dom humano, de crer em algo que pode ser Deus, a ciência, um fato ou alguém de que realizaremos nossos objetivos. É preciso crer. Sem crer ficamos paralisados, às escuras, sem horizonte. A fé também move toda nossa existência.

Agora para Liz não existia mais nada entre ela e Deus. Em uma passagem do livro Liz diz:

“Querido Deus, por favor, me mostre tudo que preciso entender sobre o perdão e a entrega.” (GILBERT, 2008, p. 194).

A passagem nos remete ao fato de ainda existir em Liz a culpa, ela sente que seu ex-marido nunca a perdoa por tê-lo deixado. Na interpretação de Boss (1981) o autor destaca a angustia e a culpa como questões existenciais dominantes no mundo. Mas a própria vida humana pode se contrapor a angústia com as manifestações do amor, da confiança e do estar-abrigado.

Em uma cena conversando com Richard Liz diz:

“Sinceramente estou esperando que ele me perdoe. E me liberte.”

Durante outra cena Richard conversa com Liz e conta sua historia e suas dores. Neste momento podemos perceber a singularidade com que cada um vive sua historia. E assim, também, como que cada um tenta se libertar de sua culpa, angústia e dor. Para Romero (2001) a pessoa que nos tornamos é uma construção histórica, provindo e feita no decurso da trajetória individual. Aqui entendemos as dimensões humanas. A relação que o homem mantém com o mundo e de como é afetado por ele. Onde cada ser é único e igual ao mesmo tempo, onde cada ser vive com suas limitações e suas conquistas.

Após a longa conversa com Liz, Richard diz a Liz acreditar que às vezes ao esperar o perdão é necessário que se perdoe a si mesmo.

“fique aqui ate perdoar a si mesma. Todo o resto se ajeitará por si.”

A cena belíssima representando a saída de Liz da Índia mostra um elefante se aproximando da personagem, significando talvez Ganesh, o deus metade elefante, metade menino, uma divindade muito amada e respeitada na Índia, é também o deus que derruba obstáculos de ordem material ou espiritual.

4. Indonésia

Bali. Um paraíso. Assim mesmo interpretado pela personagem Liz no filme. Liz procura pelo xamã Ketut, com quem Liz passa boa parte do tempo aprendendo sobre seus ensinamentos.

Aqui é o lugar aonde Liz veio à procura do seu equilíbrio. Entre os diálogos de Liz e Ketur, ele diz:

“Para ser feliz você deve saber onde está...”.

Talvez o equilíbrio da personagem seja representado pelo estado de bem estar e tranquilidade que demonstra, a rotina das meditações, a sensação de liberdade e do reconhecimento do homem enquanto finito. O homem diante da finitude entende a verdadeira essência das coisas, e tem a consciência que o mundo esta em constante movimento podendo ser afetado por ele nas suas diversas formas.

“não ligo para nada nesses dias. Não consigo imaginar nem me lembrar do que seja o descontentamento”. (GILBERT, 2008 p.243).

Percebe-se durante algumas cenas e também em algumas passagens do livro, questões sobre o saber. E pensamos o desejo de saber como um possível fenômeno existencial do homem, o insaciável desejo por conhecimento.

“Em seguida, pediu-me para lhe contar historias sobre a Índia, sobre os Estados Unidos, sobre a Itália, sobre a minha família. Foi então que me dei conta que não sou a professora de Ketut, nem sou exatamente sua aluna de teologia, mas sou o mais básico e o mais simples dos prazeres desse velho xamã – sou sua companhia. Sou alguém com quem ele pode conversar, porque ele gosta de ouvir falar sobre o mundo, e não teve muita oportunidade de vê-lo.” (GILBERT, 2008, p. 251).

Ninguém se estrutura sem laços afetivos. Durante toda essa caminhada de Liz pessoas importantes estiveram presentes. Novos e velhos amigos, familiares sempre lembrados. Sentimento de pertencimento, enraizamento. Ninguém vive sem enraizamento. É questão fundamental. E isso se dá somente com outras pessoas. A existência se constrói com o outro. E é preciso conviver com o outro para se fazer a experiência do enraizamento.

Assim aconteceu seu envolvimento com Felipe um brasileiro que Liz conheceu em Bali. Com ele viveu o encontro, a aproximação, o afeto, a intimidade... Agora Liz vive outro amor, com quem necessita estar, com o qual se reconhece, descobre seus afins, aprende e constrói seus projetos.

5. Considerações Finais

Deparamo-nos com importantes fenômenos existenciais ao longo do filme e ainda na leitura do livro. Questões que aparecem em nossa vida e que temos que de alguma forma dar essas respostas. Importa compreender que cada ser é único e constrói a sua historia de acordo com sua vivencia e com o seu estar no mundo. O homem escreve no tempo a sua historia.

E ainda é importante lembrar o homem que vive o doloroso esvaziamento, o encontro com o desconhecido, com o nada, e que nos provoca o estranhamento diante de nossa existência. A perda da onipotência nos retira do controle das coisas, nos coloca diante da perda, do nosso limite, daquilo que acaba.

Também percebemos a importância dos afetos, dos laços e da própria necessidade de se fazer projetos. A busca do sentido implica riscos e confiança e afetividade é o que dá qualidade a vida.

Referências:

BOSS, M. Angústia, Culpa e Libertação: ensaios de psicanálise existencial. São Paulo: Duas Cidades, 1981.

CRITELLI, D. M. O dom humano da fé. Folha de são Paulo 17 de maio de 2007

GILBERT, E.  Comer, rezar, amar.  Tradução  Fernanda  Abreu.  –  Rio  de Janeiro: objetiva, 2008

ROMERO, E. As dimensões da vida humana: existência e experiência. 3º edição. São Jose dos Campos. São Paulo; Novos Horizontes, 2001.

WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre, Ganexa. <http://pt.wikipedia.org/wiki/Ganexa> acesso em 23 de maio 2011.