Compreensão da Obra: O Pequeno Príncipe sob a Ótica da Abordagem Fenomenológica-Existencial

Compreensão da Obra: O Pequeno Príncipe sob a Ótica da Abordagem Fenomenológica-Existencial
(Tempo de leitura: 8 - 16 minutos)

1. Contextualização da Obra

A obra O Pequeno Príncipe de Antoine de Sainte-Exupery, da edição de 1988 da editora Agir, conta a historia de um aviador que viaja e para no deserto do Saara, em que lida com varias aventuras filosófica e poética ao lado do Pequeno Príncipe, podendo estas jornadas encontrar-se relacionadas com temas de abordagens da Psicologia. Sainte-Exupery, que era piloto civil escreveu a obra por volta de 1943, momento que ocorria a segunda guerra mundial. Pode-se destacar que ao escrever o livro em um período catastrófico que de certa forma envolve conflitos globais, o autor queria destacar os valores que o homem dá as coisas, o sentido da vida, o voltar-se a si mesmo numa relação de reflexão de como estou vivendo o aqui e agora, em um momento em que só era percebida a angustia, o sofrimento, a morte, isto é, a pureza e a verdade da existência na angustia. O livro que de certa maneira é escrito às crianças, e traduzido e publicado em mais de 150 línguas (perdendo apenas para a Bíblia Sagrada) tem dedicatória do autor em homenagem a Lèon Werth, que é um adulto, mas, que o escritor o dedica desculpando-se e, justifica por não ser esta dedicação voltada a criança de fato, no entanto, destina a obra à criança que um dia foi Léon Werth. O que remete a pensar que é destinado a todos aqueles que desejam voltar-se a si, e trazer tudo o que está oculto a nossa consciência, - não como uma forma psicanalítica de satisfazer nossos instintos – mas, para saber as bases epistemológicas do que o faz muitas vezes até morrer por crenças ideais e valores. Desta forma, o autor afirma que: Se não quiseres compreender, se não te interessas pelo seu drama, aqui fica a sentença do príncipe: - “Tu não és um homem de verdade. Tu não passas de um cogumelo!” (SAINTE-EXUPERY, 1988)

Palavras-chave: Sentido da vida, voltar-se a si mesmo, angústia, desespero, ser-no-mundo, Pequeno Príncipe

2. Desenvolvimento

O livro O Pequeno Príncipe inicialmente conta a historia de um garoto de seis anos que por observar em um livro que as jiboias engolem suas presas sem mesmo mastiga-las, resolveu esboçar o desenho de um elefante no interior da cobra, mas infelizmente sua representação foi incompreendida pelos “crescidos” que o desencorajaram a prosseguir em suas reproduções artísticas, aconselhando-o a dedicar-se a outras atividades como a geografia, por exemplo, que o ajudou bastante em suas viagens, pois este se tornou piloto de aviões.

Na tentativa de fazer com que um adulto tomasse por experiência seu desenho -da jiboia com o elefante - de nº 01, em que esta pessoa lucida não compreendia o seu desejo interpretativo, o autor do desenho se contrapunha ao desejo e fixava a ideia de conversar assuntos diversos que de certa forma deixava aquela pessoa grande como descrita, encantada pela sua razoabilidade. Aparentando ser a conversa, em algo que o outro queira ouvir e, não ao interlocutor interessado na figura.

Em Les Mots (1964) Sartre anota o interesse pelas crianças (e animais) é muitas vezes sinal de desinteresse pelos homens. E recorda-se, ainda, que a ausência da criança na literatura francesa em geral é um fato anotado por Gide no seu Dostoiévski. (SARTRE, 1918. P. 03)

Isto remonta ao que o piloto quando criança, ao desenhar a jiboia engolindo o elefante como se fosse um desenho que apresentasse ambiguidade, permitia que os outros só compreendessem de uma única maneira, como um chapéu, isso fez com que os adultos não se importassem e até mesmo tolhessem a criança de desenvolver seus dotes artísticos. Mostra também que há uma exaltação a criança na fala de Sartre, pois, o infantil não permitem que as coisas passem despercebidas, sempre questionam os motivos, perguntam insistentemente o que desejam saber, remetendo ao que interessa ao autor da obra uma reflexão sobre nossas vivencias que nos passam despercebidas devido ao nosso cotidiano padecedor, que nos faz mudar o rumo assim como o interlocutor que não tinha interesse em falar de mais nada a não ser o seu desenho, mas que com a incompreensão do outro, este se negava a seus desejos e permitia-se fazer o que era de interesse do outro. Demonstra também o interesse do escritor em fazer uma obra que falasse de crianças, realizando o que Sartre e Gide afirmavam, - havia ausência da criança na literatura francesa – então porque não colocar este alguém tão peculiar frente aos questionamentos para atingir o objetivo de um leitor reflexivo, introspectivo, fazendo uma ponte com a redução fenomenológica, um retorno as coisas mesmas a partir do livro.

Por conseguinte, este aviador vivia solitário, sem amigos com quem pudesse conversar até o dia que forçadamente teve que parar no deserto do Saara devido a uma pane em seu objeto de transporte, uma vez que foi desperto por uma voz que o pedia para que desenhasse um carneiro, dai em diante começa a amizade e experiências dos dois novos amigos.

O piloto passou a perceber que o principezinho não pertencia àquele planeta a partir de suas conversas, e este muitas vezes fazia esforço para compreender o jovem príncipe. E entendeu que os valores atribuídos pelas pessoas em querer dar representações aos outros devido à forma “diferente” que se encontram, afeta na credibilidade dada a elas, como no caso do astrônomo turco, que avistou o asteroide B 612, suposto pelo aviador, ser o Planeta do Pequenino. O que nos leva a crer que as pessoas não procuram a essência do outro na singela particularidade de se deixar levar a vida e, sim nas futilidades. Nesta instancia, mais uma vez somos levados a compreender a vida com o olhar de uma criança que se deixa ser afetada pelas coisas simples.

Mais adiante com a historia dos boabás, em que o pequeno explica que:

 ...se a gente custa a descobri-lo, nunca mais se livra dele. Atravanca o planeta. Perfura-o com suas raízes. E se o planeta é pequeno e os boabás numerosos, o planeta acaba rachando (SAINTE-EXUPERY, 1988. p. 24).

 Isto é, na tentativa de uma simples analise interpretativa, o planeta representa o humano e os boabás são os nossos problemas, podendo ser numerosos que podem acabar fazendo que chegue ao ápice do problema central, o adoecimento, a angustia.  É na decisão que Sartre situa fundamentalmente a angustia (SARTRE. p. 12). O próprio principezinho sentiu-se angustiado em saber que sua flor que tanto amava estava em algum lugar, que por escolha sua, partiu de seu planeta para visitar outras regiões. Visto que, o abandono do pequeno em relação a rosa, que corre o risco de ser devorada pela ovelha, é uma questão de escolha. Quando Sartre dá o exemplo da mãe que perdeu um dos filhos e separou-se do esposo, transferindo todo o seu sentimento e atenção ao filho que permanece vivo, mas, que tem outros planos que vão além de ficar com a mãe que deposita toda a sua vivencia para não cair em desespero, no próprio filho, faz com que este tome a decisão de aderir ao que mais convém. Agora, o que convém a este jovem? Sartre diz que a escolha será dada pelo sentimento e valor, porém, cabe-me fazer um questionamento. Por mais que esta tomada de decisão seja dada pelo que mais ama, seja ele a mãe ou não, esta atitude não esta direcionada ao que não se pode fazer o que entra no campo do desespero? Sim, pois, se “o desespero implica sermos nós a escolher nosso ser. O desamparo é paralelo a angustia. Quanto ao desespero, esta expressão tem um sentido extremamente simples. Quer ela dizer que nós nos limitamos a contar com o que depende da nossa vontade, ou com o conjunto das probabilidades que tronam a nossa ação possível.” (SARTRE. p. 12).

Não seria isto, “nos limitamos a contar com o que depende da nossa vontade” a abdicação de realmente fazer o que queremos para sentirmos a angustia e o desespero por não ter feito no sentido de perceber a existência? Abrir mão de fazer algo que deseja como muitas vezes fazemos em favor de se perceber nisto em um agir sem esperança, e no caso de O Pequeno Príncipe, abandonar a rosa e, angustiar-se não só pelo risco que ela corre, mas, em perceber no aviador que este agiu não como um homem e sim como um cogumelo. O que o fez entrar no misterioso mundo das lagrimas, neste caso causadas pela angustia. Esta angustia do pequenino pode ser levado também como um sofrimento que é essencial ao ser humano, é algo que acontece e que não se pede para acontecer.

Ao indagar sobre os espinhos da rosa com o piloto, que por sinal não lhe presta devida atenção o principezinho que se irrita fazendo uma analogia do aviador, dando-lhe exemplos de simplicidade ao dizer:

Eu conheço um planeta onde há um sujeito vermelho, quase roxo. Nunca cheirou uma flor. Nunca olhou uma estrela. Nunca amou ninguém. Nunca fez outra coisa senão somas. E o dia todo repete como tu: “Eu sou um homem serio! Eu sou um homem serio!” e isso o faz achar-se de orgulho. Mas ele não é um homem; é um cogumelo! (SAINTE-EXUPERY, 1988. p. 29).

A forma em que a rosa demonstra a sua transição remete a nossa forma de ser-no-mundo defendida por Heidegger, que consiste em viver para a morte. O sentimento de finitude é frustrante muitas vezes, mas ao mesmo tempo nos traz à consciência da redução fenomenológica em que nos voltamos para nós mesmos, neste sentido uma acaba por completar a outra. É como se todos vivêssemos sabendo da existência da finitude e nossa autenticidade encontra-se nela que é viver para a morte. Que há possibilidade de haver relação entre o sentido da vida que tanto procuramos e o "sentimento de finitude", onde vivemos sabendo que há um fim por isso nos angustiamos tanto em dar um sentido a ela (vida), na busca de nossa identidade autentica.

O Pequenino que viajou por vários planetas e conta suas aventuras e estranhezas  do que viu ao piloto, nos recordando que todos os seus personagens vivem sem companhia em seus planetas apresentado como principais características: O Rei é o morador do primeiro planeta visitado pelo menino e, pensa que todos são seus súditos, prevalecendo a necessidade de controle de ordem sobre eles com ar de autoridade. Porém, ensina que apesar de sua necessidade de comando, deixa claro que: "É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar".(SAINTE-EXUPERY, 1988. p. 40)

O Vaidoso era o habitante do segundo planeta, este necessitava do prestigio e reconhecimento de sua beleza, inteligência e vestimenta. É um dependente do outro para seu reconhecimento. A frase que lhe marca é: "Mas o vaidoso não ouviu. Os vaidosos só ouvem elogios." (SAINTE-EXUPERY, 1988. p. 44).

Assim como o vaidoso, o rei também era indispensável do outro para se auto afirmar, como forma de reconhecimento de sua existência. E para afirma isto, em O Existencialismo é um humanismo, Sartre assegura que:

Para obter uma verdade qualquer sobre mim, necessário é que eu passe pelo outro. O outro é indispensável à minha existência, tal como, aliás, ao conhecimento que eu tenho de mim (p. 16).

Na viagem ao terceiro planeta, o pequenino viu que quem o habitava era um bêbado angustiado na tentativa de encontrar na própria bebida a forma de esquecer seu vicio, considerada pelo mesmo como uma vergonha.

“– Por que é que bebes? Perguntou o principezinho.
– Para esquecer, respondeu o beberrão.
– Esquecer o quê? Indagou o principezinho, que já começava a sentir pena.
– Esquecer que eu tenho vergonha, confessou o bêbado, baixando a cabeça.
– Vergonha de quê? Investigou o principezinho, que desejava socorre-lo.
– Vergonha de beber! conclui o beberrão, encerrando-se definitivamente no seu silencio” (SAINTE-EXUPERY, 1988. p. 45)

Esta relação do bêbado com o príncipe demonstra a tristeza e angustia do bêbado, que utilizava do seu vicio vergonhoso como forma de fugir dele mesmo. Esta representa não só a angustia defendida por Sartre descrita em outros exemplos acima, bem como o desespero de Viktor Frankl, que diz que o desespero vale a pena ser vivido, sendo uma angustia existencial, visto que, deve-se encontrar sentido no próprio sofrimento.

Vitkor Frankl diz que: A busca do sentido certamente pode causar tensão interior, em vez de equilíbrio interior. E que nas palavras de Nietzsche diz: Quem tem por que viver suporta qualquer como. (FRANKL, 2002. p. 97) É o caso do acendedor de lâmpadas – residente do quinto planeta - que segue o regulamento fielmente, o que de certa forma provoca-lhe desconforto por não conseguir realizar o que deseja. Como se este cumprimento de tarefa fosse algo que lhe fizesse sentir o que se chama de vazio existencial, por pôr em atividade o que lhe é regulamentado por conformismo que se dá de forma totalitarista esta ordem. Este vazio encontrado é uma manifestação do seu estado de tédio, em que Frankl parafraseando Schopenhauer diz: aparentemente, a humanidade estava fadada a oscilar eternamente entre os dois extremos de angustia e tédio. (FRANKL, 2002.p.97) O que nos leva a voltar nosso olhos ao que estamos vivendo, em um período de constantes mudanças, acumulo de reponsabilidades ao ponto que não nos damos o “luxo” de contemplar a nós mesmos. Como diz o principezinho: ... é o único que se ocupa de outra coisa que não seja ele próprio (SAINTE-EXUPERY, 1988.p.53)

A serpente e a raposa, que foram avistadas pelo pequeno no Planeta Terra (como havia indicado o geografo) representam as figuras de respeito ao que é genuíno (serpente) e, valor na pureza de uma amizade que precisa ser cultivada (raposa). A rosa, remonta ao cuidado que o profissional de psicologia deve ter para com o “cliente”, numa relação de confiança ensinada pela raposa e, de respeito como na serpente.

A segunda maneira de encontrar um sentido na vida é experimentando algo – como a bondade, a verdade e a beleza – experimentando a natureza e a cultura ou, ainda, experimentando outro ser humano em sua originalidade única – amando-o. (FRANKL, 2002 p.100) Por conseguinte pode-se afirmar que, este trecho remete a experiência única vivida na amizade entre o piloto e o Pequeno Príncipe - que apesar de voltar-se a si mesmo, procurando sempre viver o aqui e agora – foi um menino que estava a procurar o sentido de sua vida e, percebeu que isso só era possível nas palavras de Frankl: “o verdadeiro sentido da vida deve ser descoberto no mundo, e não dentro da pessoa humana ou de uma psique, como se fosse um sistema fechado.” Isto é, o verdadeiro sentido só é percebido quando deixamos de viver em nossos planetas assim como o rei, bêbado, geografo, acendedor de lâmpada etc e passamos a conviver com os outros, consentindo que sejamos afetados, mas que também afetemos o outro. É o cativar que a raposa ensinou ao Principezinho, que se permitiram serem cativados reciprocamente entre príncipe, rosa, raposa e aviador.

“...Mas se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Será para mim único. E eu serei para ti única no mundo...” (SAINTE-EXUPERY, 1988.p.68)

O sofrimento do principezinho deixou de existir quando este encontrou o sentido que procurava, no sacrifício, em que como diz Frankl (2002. p.102): Sofrer desnecessariamente é ser masoquista, e não heroico. Porém, este sofrimento que não se fez desnecessário, mas inevitável para a busca do sentido, mostrou-se imprescindível para que fosse concretizado o seu pretensioso sentido, tornando heroica a sua atitude de escolha por sofrer e no sofrimento buscar a sua pureza genuína tão aspirada, que sufoca e angustia.

3. Considerações Finais

A obra de Antoine de Sainte-Exupery, é uma forma de mostrar ao estudante de psicologia as diferentes formas de saber lhe dar com pessoas, que assim como os personagens se encontram em vários planetas, nós igualmente o fazemos principalmente quando estamos envolvidos em nossos problemas, angustias, desespero, procura de sentido, fixando-nos muitas vezes em um mundo que provoca o tédio. Provoca-nos, o livro, para a realidade de que nem sempre todos estarão abertos ao dialogo, que é necessário colocar em pratica o ensinamento da sábia raposa de que é indispensável o cativar. As pessoas querem libertar-se do que as afligem, e desejam que isto seja feito de forma imediata o que em alguns casos faz com que recorram a outros métodos que lhe tragam bem estar “imediato” mesmo que momentaneamente. Até mesmo o pequenino deixou-se levar pela angustia, permitindo que a serpente que se dizia ser mais poderosa que o dedo de um rei, lhe tirasse daquela crise que se demonstrou necessária para conhecimento de sua existência. O principezinho que sempre utilizava da “técnica” de indagação e repetição, fazendo a devolução da pergunta, os questionamentos realizados fazendo com que o sujeito reflita acerca do que foi dito, e este é um dos papeis do psicólogo. Quiçá como forma de reflexão do sentido da vida que a pessoa atribuir. Na leitura de O Pequeno Príncipe, pude perceber que: O homem não é senão o seu projeto, só existe na medida em que se realiza, não é, portanto, nada mais do que o conjunto dos seus atos, nada mais do que a sua vida. (SARTRE. p. 12). É a partir da percepção do simples e óbvio que os “adultos” não veem, que o autor lança a questão: “o essencial é invisível aos olhos!” A partir do imaginário a criança consegue unir a realidade com o desejo, ao qual em seu mundinho os seus desejos são realizados, porém, o autor da obra espera que percebamos os detalhes que são esquecidos, como a peculiaridade do sujeito e que pode-se tornar “individual” frente ao outro.

Sobre o Autor:

Elayne Ferreira de Negreiros - estudante de Psicologia da Universidade Federal do Vale do São Francisco - UNIVASF.

Referências:

SAINTE-EXUPERY, de Antoine. O Pequeno Príncipe: com aquarelas do autor. Tradução: Dom Marcos Barbosa. 32ª ed.. Rio de Janeiro. Editora: Livraria Agir.1988

SARTRE, J. P. O existencialismo é um humanismo. São Paulo. Abril Cultural, 1918. Os pescadores.

FRANKL, Viktor. Em busca de sentido. II Conceitos fundamentais de logoterapia. São Paulo. Vozes, 2002.

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