Fichamento do livro “Sobre a Televisão”, de Pierre Bourdieu

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Bourdieu diz que a televisão, em busca de audiência, expõe a um grande perigo não só as diferentes esferas de produção cultural como também a política e a democracia, e espera que aquilo “que poderia ter se tornado um extraordinário instrumento de democracia direta não se converta em instrumento de opressão simbólica (p. 13)”.

Acerca do “domínio dos instrumentos de produção”, coloca-o como condição para falar na televisão – no seu caso, sem limitação de tempo, imposição de assuntos ou ordem técnica. Classifica quem não os possui e mesmo assim se disponibiliza para falar na TV como pessoas que querem se fazer ver e serem vistas (Para Berkeley, “Ser é ser visto”). A tela de TV hoje é um lugar de exibição narcísica.

Sobre a televisão, influenciada pela política e pressionada economicamente – exerce uma violência simbólica, com cumplicidade tácita de quem sofre e muitas vezes de quem exerce (inconscientemente) também.

Dentre os noticiários, as variedades (ou fatos-ônibus) ocupam grande parte da programação e do tempo valioso na TV, mesmo sem importância relevante para a população – agradam por serem de interesse comum de todos, e um consenso geral; ao mesmo tempo, ocultam coisas preciosas e importantes. A televisão também “oculta mostrando”, segundo Bourdieu, quando mostra uma coisa diferente do que deveria mostrar, de um jeito insignificante ou mesmo com outro sentido.

Sobre os jornalistas, Bourdieu diz que tendem a pensar que o trabalho de enunciação é um trabalho de denúncia, de ataque contra pessoas, e ainda que vêem certas coisas e não outras – buscam o excepcional, mas o excepcional para eles.

O extraordinário, buscado pelos jornalistas, acaba sendo o ordinário dentre os jornais, devido à circulação circulante de informações. O peso da televisão nessa relevância de assuntos é determinante – é determinante e central o assunto quando retomado pela TV. Todos estes, ainda, estão sujeitos às pressões dos índices de audiência. A lógica comercial se impõe às produções culturais.

Dentre os debates televisivos, Bourdieu destaca dois tipos, denominando-os como os “verdadeiramente falsos” e os “falsamente verdadeiros”. O primeiro caso ocorre quando os debatedores são, claramente, amigos e convivem juntos no dia a dia. No segundo caso, o autor destaca a arbitrariedade e o poder inserido nas mãos do apresentador e mediador, que é o responsável por distribuir a palavra, tempos e sinais de importância. Também fala sobre a composição do estúdio e demais importâncias relevantes.

A TV tem pouca autonomia. Restringe as relações sociais entre jornalistas, e a concorrência tem uma cumplicidade objetiva, ou seja, visa interesses comuns ligados à sua posição no campo de produção simbólica.

Acerca do campo jornalístico, Bourdieu o classifica como um microcosmo com leis próprias, definidas pela sua posição no mundo global e pelas atrações e repulsões que sofre da parte de outros microcosmos. É um espaço social estruturado, com relações diversas, composto por dominantes e dominados – cada um empenha a força que detém e que define sua posição no campo, e conseqüentemente, suas estratégias. Entre as emissoras, há uma relação de forças objetivas que constituem a estrutura do campo.

Os mecanismos, sujeitos às exigências do mercado, influenciam os diferentes campos de produção cultural. Eles devem sua importância ao mundo social por deterem um monopólio real sobre os instrumentos de produção e de difusão em grande escala da informação.

Nas lutas pelo índice de audiência e concorrência pela fatia do mercado, as emissoras apelam para o sensacionalismo; a busca do sensacional significa sucesso comercial. Dominantes (reconhecidos) costumam também enunciar veredictos na TV.

Ainda sobre o campo jornalístico, Bourdieu o classifica como muito mais dependente das forças externas que todos os outros campos de produção cultural – depende diretamente da demanda, e é sujeito à sanção do mercado e do plebiscito. Assim, ele age sobre os outros campos, sujeitos às limitações estruturais. A audiência, regida pela economia, tem um peso significativo sobre a TV e conseqüentemente sobre o jornalismo e jornalistas; o campo jornalístico pesa sobre todos os outros de produção cultural.

Bourdieu encerra defendendo a luta contra o índice de audiência, em nome da democracia (apesar do caráter paradoxal, de tomar a audiência como não democrata), afirmando que a TV exerce sobre o consumidor supostamente livre e esclarecido as pressões do mercado, que nada exprimem de democrático.

Conclusão

Bourdieu nos fala no livro sobre o poder da indústria televisiva, a manipulação das informações e a monopolização de como estas chegam até o público, e alerta para os problemas que isto pode trazer.

Bem mais difundida entre as pessoas do que os jornais, por exemplo, a TV se torna responsável por ditar aquilo que tenha relevância ou não dentro dos acontecimentos mundiais. A informação então chega até o público da maneira que a TV definir; distorcida, incompleta, parcial. Ela oculta e mostra o que achar melhor, e o público toma por correto e completo aquilo que vê.

A TV ainda é influenciada política e, principalmente, economicamente; os índices de audiência ditam o caminho a seguir e Bourdieu intenta em conscientizar o telespectador acerca de toda essa situação. Um meio de comunicação com tamanha difusão poderia ser de extrema ajuda para a democracia direta e, no entanto, acaba distorcendo a realidade para quem a vive.

Referência

BOURDIEU, Pierre. Sobre a Televisão: seguido de A influência do jornalismo e Os Jogos Olímpicos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

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