Preconceito: tão antigo quanto à humanidade, tão vazio quanto o ser mortal

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Preconceito é, para a psicologia social, uma atitude que contenha uma visão injusta, intolerante e desfavorável contra um grupo minoritário e mais fraco. Até a década de 20 a comunidade científica não se importava em estudar os fenômenos relativos ao preconceito, até porque, as premissas reinantes até então, era a de que de fato, existiam diferenças entre as diversas etnias. Ou seja, a escravidão aos quais os negros foram submetidos por questões econômicas gerou a visão de que pessoas com pele negra seriam inferiores aos brancos. Assim como a questão da pele gerava diferença entre brancos e negros, também as questões culturais até hoje permanecem. O olhar da sociedade é diferente para brancos, cristãos, apreciadores de música clássica e cultos do ponto de vista do grau de escolaridade e negros, umbandistas, apreciadores de gêneros musicais africanos e cultos do ponto de vista apenas da experiência que só pode ser trazida pela vida, mas que o analfabetismo impede de expressar em palavras os sopros mais belos de uma mente pautada apenas na simplicidade do dia a dia.

A partir da década de 30, então o preconceito é visto como uma postura intolerante, irracional, fruto de defesas inconscientes e grandes indicadores patológicos do ponto de vista do algoz.

A atitude preconceituosa é alicerçada sobre três componentes, são eles: O estereótipo que é o componente cognitivo do preconceito, o sentimento negativo em relação ao objeto social que é o componente afetivo e a discriminação que é o componente comportamental. Esses três componentes interagem entre si de forma dinâmica, deste modo qualquer mudança em uma dessas variáveis poderia gerar uma mudança na atitude do preconceito.

Para lidar com o ambiente social em que está inserido e frente às limitações cognitivas, pessoas lançam mão de recursos chamados atalhos  – heurísticas - que utilizam o tempo todo para se proteger, evitar punições, conflitos e ansiedades. Ocorre que esses atalhos, que são em sua essência saudáveis se utilizados com equilíbrio e parcimônia, tornam-se socialmente patogênicos e perigosos se lhe são atribuídas cognições equivocadas com sentimentos negativos. Essas heurísticas na atitude preconceituosa são o estereótipo e é a base cognitiva do preconceito.

Se a utilização de heurísticas é própria do sujeito humano, permitem-se refletir sobre há quanto tempo esses estereótipos são utilizados? A resposta seria: Desde sempre.

Se o leitor se voltar aos remanescentes culturais gregos, se tem na mitologia grega vários exemplos de atitudes preconceituosas dos deuses do Olimpo em relação a um grupo menos poderoso dos mortais. Abordar-se-á neste texto apenas um deles. A história de Psiquê e Eros.

Afrodite a deusa da beleza e mãe de Eros, frente uma demanda patológica expressada pela inveja da beleza da mortal Psiquê, ordena ao filho que mate seu objeto de ódio. No entanto, Eros, não se sabe se vítima de uma de suas flechas, se apaixona por Psiquê, utilizando de vários recursos para possuí-la, inclusive a influência sobre o oráculo que orientou o pai de Psiquê, um rei preocupado com a filha a deixá-la no alto de uma colina para desposar um monstro. Apesar de todo sentimento de tristeza, Psiquê é levada a um belo palácio de mármore e ouro e desposa Eros, não obstante jamais tê-lo visto. Influenciada pelas irmãs e pela curiosidade, a bela e mortal princesa trai a confiança de Eros ao tentar vê-lo. Eros volta à casa de Afrodite e aí começa o sofrimento real de Psiquê que para reconquistar o marido, se sujeita a todas as tarefas injustas que a sogra lhe impõe. A saga de Psiquê apenas findou-se quando a pedido de Eros, Zeus a transforma também em uma deusa.

Ou seja, a dinâmica da aventura mitológica de Psiquê, apresenta muitos dos conceitos da psicologia social acerca do preconceito.

Em primeiro lugar o estereótipo que Afrodite tinha de Psiquê. Como uma mortal poderia ser tão extraordinariamente bela quanto a própria deusa da beleza? Isto por si só, compreenderia o componente cognitivo do preconceito. Em segundo lugar o sentimento negativo de raiva e inveja, manifestando o componente afetivo e a ação discriminatória, tentando eliminar Psiquê e lhe impondo sofrimentos inexoráveis. Esta é a análise do ponto de vista do algoz.

Abrirei então, aqui um momento para tratar desses algozes, não do ponto de vista de suas emoções, mas do ponto de vista relativo à teoria do preconceito. Qualquer um pode ser algoz ou vítima ou ambos simultaneamente numa perspectiva de interação social.

Durante o desenrolar da história humana, muitos foram algozes: Brancos contra negros, Católicos contra protestantes, Arianos contra todas as etnias não arianas, puritanos contra hippies, trabalhadores contra desempregados, a sociedade liberta contra a sociedade carcerária.

Em comum a todos os algozes, a ansiedade em relação ao que poderia representar a ameaça que o novo traz consigo. A utilização de atalhos cognitivos para lidar com o ambiente social. Com a utilização desses atalhos cognitivos, decisões são tomadas de forma rápida, sem a necessidade de despender grande energia para analisar situações complexas, evita-se a ansiedade e os conflitos inter e intrapessoais.

Do ponto de vista da vítima as características também são comuns. Psiquê se submeteu aos maus tratos de Afrodite porque estava em uma posição fragilizada, de mera mortal frente a ira de uma deusa. Quantos judeus não puderam se defender porque estavam submetidos ao nazismo, quantos índios e negros submetidos ao poderio bélico e econômico europeu, quantos hippies, prostitutas e homossexuais submetidos a um ideal moralista pseudocrístão?

Diante disso fica o questionamento? É possível a erradicação do preconceito? Como? Faz parte da natureza humana a utilização de heurísticas, portanto, a natureza humana sempre lançará da utilização desses atalhos. No entanto, é possível a redução do preconceito.

Diversas experiências foram realizadas pela Psicologia Social acerca do tema. Não só a psicologia social, mas as próprias políticas públicas, como a união por si só de negros e brancos em escolas e bairros nos Estados Unidos. Assim como a simples união entre Afrodite e Psiquê não promoveu a redução do preconceito, também a união dos diferentes por si só não é suficiente para se conseguir este empreendimento. Muito pelo contrário, a união meramente, pode inclusive agravar, uma vez que ficam ainda mais evidentes as diferenças entre os grupos, como na mitologia grega ficou evidente o poder da imortalidade frente à frugalidade da mortalidade.

Então, para solução desta complicada equação social, será necessário relembrar como terminou a saga de Psiquê. A pedido de Eros, Zeus o maior Deus da mitologia transformou Psiquê em imortal, ou seja, igualou a bela princesa à deusa Afrodite. Nas pesquisas de psicologia social a dinâmica para acabar com o preconceito foi semelhante. O preconceito entre grupos somente foi extinto, quando em igualdade de condições e status dois grupos tiveram que se unir em trabalho e colaboração para um bem comum. Sem competições e rivalidades.

Cabe aqui o questionamento: O que aconteceria caso Zeus concedesse à Psiquê a condição de deusa e a Afrodite a condição de mortal? Teria Psiquê compaixão à sogra? Não teria ela nenhum tipo de atitude intolerante? Durante a visita do papa Francisco os cariocas presenciaram a “marcha das vadias” na qual muitas prostitutas utilizaram símbolos religiosos com o objetivo de agredir e hostilizar católicos presentes. O que aconteceria caso a marcha contasse com um número muito maior que os presentes à jornada, e evidente, se aquelas pessoas todas tivessem o mesmo objetivo de agredir os peregrinos?

O que aconteceria num local cuja diversidade seria representada pelo que a sociedade considera como padronizado e aceitável? E as pessoas comuns fossem aquelas atuais vítimas de preconceito?

A história da humanidade apresenta sociedades que foram submetidas a algum poderio e quando em condições favoráveis foram cruéis ao submeter outros povos.

Assim diversas são as causas dos preconceitos, são tantas que precisam ser divididas em quatro categorias quais sejam a competição e conflitos políticos e econômicos, o bode expiatório, fatores referentes à personalidade e causas sociais. Não convém a este texto esmiuçar as características de cada uma.

No entanto, independente do motivo do comportamento agressivo e preconceituoso é importante entender que para que o preconceito seja extinto é importante que aconteça a igualdade de condições, a cooperação, a reestruturação cognitiva do algoz e da vítima. Porém atitudes como a vitimização e o assistencialismo politiqueiro não são bem vindos. Zeus não obrigou Afrodite a aceitar Psiquê, o grande Deus promoveu à princesa a mesma condição imortal de seu algoz. E assim deve ser feito, o olhar sobre a vítima deve-se pautar sobre um elevar social, pessoal e cognitivo. Porque apenas com a reestruturação dos componentes do preconceito é que será possível a redução sistemática de todas as suas nuances e formas.

Sobre o Autor:

Fernanda Sobreira Cossate Van de Koken - aluna do 3º período de psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Alegre, Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Referências:

RODRIGUES, Aroldo, ASSMAR, Eveline Maria Leal, JABLONSKI, Bernardo. PSICOLOGIA SOCIAL, 18ª Ed. Reform., Petrópolis, Ed. Vozes, 1999

ARAÚJO, Ana Paula. EROS E PSIQUÊ, disponível em <http://www.infoescola.com/mitologia-grega/eros-e-psique/> acessado em 28 de novembro de 2013.

Africa United, COSI SÍA, Disponível em <http://www.youtube.com/watch?v=dCMYYgYu4VY> acessado em 27 de novembro de 2013.