Psicanálise de Casal: Análise do Filme “Entre o Amor e a Paixão”

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No filme “Entre o Amor e a Paixão” é narrada a história de Margot que tem 28 anos e vive um casamento aparentemente feliz com Lou, escritor de livros de culinária. O relacionamento se mostra feliz, mas ao mesmo tempo em que não há conflitos, não há também muitas demonstrações de intimidade, principalmente sexual, então se parece mais uma relação infantilizada e amigável. Essa relação vivida com o esposo desde o inicio do filme pode remeter ao conceito de “psicose branca”, sendo uma relação neutra visando evitar conflitos entre o casal, negando que algo está errado ali. O branco remete a opacidade, ausência de reflexão e pensamento, impedimento ao prazer e progresso da relação, o que vai contra a noção de casal fértil e criativo.  (GREEN, 1988)

Há no conceito de psicose em branco que Green (1988) remete a uma espécie de depressão primária que seria o desinvestimento radical, gerando partes mentais “em branco” sem quaisquer componentes afetivos, de dor ou sofrimento. O casal do filme vive essa falta de reflexão, assim negam que ali existam conflitos, não brigam, mas os conflitos estão ali, adormecidos e prejudicando a capacidade fértil e criativa do casal. Margot durante o filme parece viver certo estado de “inexistência”, o que muda quando conhece Daniel, havendo um reinvestimento.

A necessidade constante de afirmação do amor do par com Lou parece esconder as incertezas e medos de cada um, assim ambos parecem viver a impossibilidade em lidar com suas diferenças e sentimentos mais profundos, o que certamente se deve a prováveis problemáticas, o que fica mais evidente em Margot, nas relações objetais iniciais.

Freud propôs as "escolhas anaclíticas de objeto”, onde o objeto de amor é escolhido a partir do modelo das primeiras relações objetais do individuo, que seriam então geralmente as relações com os pais, principalmente a relação mãe-bebê. Na teoria das pulsões, as escolhas anaclíticas de objeto estariam se estabelecendo a partir do modelo de relação inicial em que a satisfação sexual se apoiaria sobre objetos responsáveis pela conservação da vida, ou seja, sobre o seio materno, sendo o primeiro objeto de satisfação sexual daquele bebê. (FREUD, 1905)

O primeiro objeto e sua relação com ele será então o modelo para as futuras relações objetais, sendo o sugar do seio protótipo para futuras relações amorosas durante a vida. Deste modo, os processos psíquicos infantis, tanto em sua dimensão de ação como de afeto e representação, tendem a ser o modelo para as relações adultas. A partir disso, as vivências primárias objetais explicam escolhas atuais, o que marca a noção de temporalidade na psicanálise. (FREUD, 1905)

O casal Lou e Margot aparece de modo muito infantilizado, nas brincadeiras parecem duas crianças muito semelhantes, mas como adultos, quando realmente precisam de uma conversa, não conseguem lidar com a diferença entre as formas de expressarem o seu amor e desejo um para o outro. Em algumas conversas como quando Margot quer ter um filho e ele não, há pouco dialogo e discussão acerca disso, sobre essa diferença de desejos, ficando ali um conflito presente, mas não verbalizado, havendo magoa e raiva, sentimentos que ambos tentam evitar.

A dúvida e o medo sobre o outro não permitem que possam respeitar o tempo do desejo de cada um, de tal forma que primeiro temos uma cena a qual Margot não corresponde ao desejo sexual do marido e numa segunda cena ele faz o mesmo. O que poderia ser vivido apenas como um desencontro, caso não houvesse sentimentos reprimidos entre ambos, então soa como uma rejeição.  O amor se dá pela imagem psíquica que se faz do objeto amado, o que é diferente da pessoa real, havendo uma fantasia decorrente de uma liga de imagens e significantes vivificada pela força do desejo que ambos tem um do outro, assim no par inicial não parece haver mais essa fantasia, o que piora quando Margot conhece outro rapaz, o que gera nela um maior contato com esse Lou real, que se torna insuportável a ela. (NASIO, 2007)

Margot diz ao esposo que dizer que não quer avançar para uma relação sexual, aborrecendo o marido, o que ilustra a vivência de um relacionamento fraternal e assexuado. Posteriormente, ele não corresponde a tentativa de sedução da esposa por ocupar-se da preparação do jantar, assim parece se gerar um ciclo de rejeições muito velado e silencioso entre o par.  Em certo momento conflituoso do filme Lou diz a esposa: “Em algum lugar eu sabia que alguma coisa não estava bem, mas acho que apenas espera passar”, esse discurso parece repleto de mecanismos de defesa por parte de Lou, não querendo lidar com uma possível dor de separação, usando então do mecanismo de negação até as últimas consequências.

Ele parece não enxergar a sua esposa como um ser diferenciado dele, pois tem muita dificuldade em reconhecer os próprios sentimentos. Em sucessivas cenas se mostram tentativas de Margot em buscar a atenção do marido, como quando ele esta ao telefone, cozinhando ou restaurante com ela. Todas evidenciam que ele busca fugir da esposa executando tarefas e evitando diálogos, como na comemoração do aniversário de casamento deles, em que ele não consegue criar um espaço de dialogo com ela e diz que não há motivos para dialogar, pois se vivem juntos já sabem tudo um do outro, então não seria preciso.

Melanie Klein postula que na posição depressiva do desenvolvimento, se inicia um processo de coesão do ego arcaico. Nesta há tendência à integração se alterna com a tendência à desintegração, então uma maior ou menor coesão está em conexão com uma capacidade maior ou menor do ego em tolerar a ansiedade, e o seio bom introjetado é o ponto onde o bebê se foca como instrumento de coesão e construção do ego. A autora então enfatiza a capacidade adquirida no inicio do desenvolvimento em tolerar a ansiedade.

Um dos principais pontos para a construção da tolerância à ansiedade é a presença/ausência da mãe, combinada com o amparo que vem a seguir, isso gera no bebê a noção de espaço e tempo, lhe proporcionando segurança. Se há uma assistência contínua ou dessa mãe, assim como ansiedade intensa projetada no bebê, se torna difícil a simbolização de sua presença pela criança, assim não saberá lidar com a ausência dela. Dificuldades nessa simbolização podem gerar então a falta de simbolização dessa segurança da disponibilidade dessa mãe, causando ao bebê dificuldades em “ser”.

A ausência da mãe por determinados períodos é o que gerar ao bebê a noção de que  a mãe “desaparece” mas acaba voltando, sendo assim um ser diferenciado dele e do ambiente, noção essa que Margot parece não ter, quando demonstra sua grande incapacidade de ficar sozinha e temer escalas e conexões, precisando sempre ter alguém ao lado, com muita pressa.       A qualidade do encontro com a mãe também é importante ao bebê, pois há a construção da idéia de desejo amoroso , assim o bebê deseja algo da mãe externa a ele. Margot certamente viveu essas dificuldades, pois sua dificuldade e medo de contato com a realidade são características de um mundo esquizo-paranóide criado para suportar o desamparo.

Margot busca alguém que a veja, a ouça, a enxergue e invista nela, mas como uma criança deixa-se embalar nos movimentos do carrossel que levam a vertigem, pois talvez isso lhe gere certa confusão.  Quando conhece Daniel,  instantaneamente sente uma “atração” e logo descobre que são vizinhos, e até então nunca haviam notado um ao outro. Ele é um artista, parece idealizado perto do esposo Lou.

Não parece mera coincidência o fato de Margot ter conhecido o vizinho durante sua viagem e nunca ter notado que moravam perto já há um tempo, mas sim uma identificação de ambos durante a viagem, assim pareceu a eles uma ilusão inconsciente de que aquele foi o primeiro encontro deles.  Freud (1921) afirma que em casos como o do filme ocorre um estado de “hipnose”, no caso Daniel seria o hipnotizador, colocado num lugar de ideal de ego, o que gera da hipnotizada, no caso Margot, um desvinculamento do mundo e atenção total a quem a hipnotiza, o que foi favorecido pelo contexto da viagem dela, o que não ocorre no ambiente de sua vizinhança, por isso não o havia notado.

Lamanno (1994) fala sobre vivências virtuais de cada membro do casal, baseadas nas representações internas das figuras parentais vividas. Estas podem ser inibidas e dissimuladas através de mecanismos de defesa, além de sublimadas por meio de trabalho artístico ou intelectual. De forma alguma se fica totalmente imune a essas vivências virtuais, pois a partir delas que se busca a realização com o outro ou no outro.

Margot era casada há cerca de cinco anos, com um marido também escritor, porém que escrevia sobre livros de culinária. a vida do casal já entrou na rotina; não é, porém, infeliz.  São amigos e se amam, mas o fogo da paixão já sumiu faz muito tempo e isso faz falta para Margot, quer dizer, ela anseia por algo novo.  Não consegue, contudo, definir que "algo novo" é esse, ou o que a incomoda na própria vida.  O casal começa a ver, portanto, o relacionamento deteriorando-se não se sabe como nem porque, nem o que fazer para impedir.

Enquanto casal, a protagonista e o marido pareciam viver uma reciprocidade e encaixe, mas parece que o tempo os deixou “acomodados” e que quando Daniel surgiu foi como o que Rubem Alves apud Lamano (1994) citou:

“Defrontamo-nos com um rosto(ou será apenas uma voz, ou uma maneira de olhar, ou um jeito da mão...) que sem razões, faz a bela cena acordar. E somos possuídos pela certeza de que este rosto que os olhos contemplam, é o mesmo que, no quadro está escondido pela sombra. O corpo estremece. Está apaixonado”.

Margot com o marido tinha uma relação mais “realista”, acomodada, e com a chegada de Daniel passou a viver um clima de alucinação primitiva, apesar do vizinho estar sempre à espreita, sendo o investimento feito por ela. Apesar de em fantasia Margot ter uma completude narcísica com o vizinho, sabe que não deve trair o marido. Certo trecho do filme ela diz que tem medo de conexões, remetendo ao fato de gostar do momento de encontro inicial, paixão, mas que teme o meio do caminho, o durante, que remete ao fato de estar junto, casada com o marido, sente insatisfação e não sabe o motivo, drama que vive durante todo o filme.

Margot teme a solidão, assim mesmo insatisfeita troca de companheiro, pois teme perder, metáfora feita quando diz que “teme mudar de avião, ficar só e morrer no aeroporto”. Talvez ela tenha tido o real medo de ficar só, na mesma rua, solitária, mas para isso não ocorrer, mudou de marido.

Os encontros com Daniel durante o filme, que começam a seguir um ao outro, fazem com que a protagonista viva esse estado muito primitivo de paixão psicótica, enxergando no outro uma completude total a sua vida, realmente um “fecho” narcísico perfeito.

Pode-se pensar seguindo a lógica de Melanie Klein que o parceiro amoroso seria como foi nas relações parentais mais primitivas do sujeito, aquele em que simultaneamente se projeta amor e ódio, objeto bom e mau, e também seria aquele que permite que o par lhe projete fantasias inconscientes ligadas a aspectos primitivos e possibilite que estas sejam revividas. Para o inconsciente, o parceiro é “moldado” de acordo com o desejo e fantasias do apaixonado, fruto das projeções. A dinâmica do casal se dá então por introjeções e projeções de aspectos primitivos da vida de ambos sujeitos ali que constroem uma identidade “nós”.

Esse psiquismo criado pelo casal remete a relação sexual quando se pensa no ato como uma “ruptura de fronteiras” entre os sujeitos, como se houvesse uma fusão física, psíquica e também egóica.  

No decorrer do filme, a protagonista vive sua nova paixão, contudo o que antes parecia uma paixão, se transforma no mesmo amor que ela vivia no casamento anterior, até a casa fica muito parecida com a que ela morava com Lou. Quando Margot criou coragem para seduzir o vizinho que antes lhe parecia tão proibido, remetendo a uma revivência edípica, ela passou a se deparar com a realidade, já que este deixou de ser o amante proibido, para ser o real marido, com quem ela pode viver suas fantasias, mas isso acaba lhe despertando certa “monotonia”.

Geraldine, a irmã alcoólatra de Lou em, certo momento do filme, afirma que utiliza a bebida para completar a sua vida, porém acaba indo para reabilitação e percebe isso em Margot com relação a sua vida amorosa, utilizando um amante para completá-la, uma fuga ao tédio.

Sobre a historia de vida da protagonista, o filme não traz muitos dados mas pode-se pensar que no desenvolvimento humano, a adolescência refere-se a uma fase de aquisição da intimidade, assim capacita o sujeito a estabelecer relações afetivas com pares, então este passa a buscar parceiros, já que percebe que pode viver uma relação incestuosa.  Somente quando o ser se percebe como único e que pode e quer ser complementado ele passa a investir em relacionamentos afetivos duradouros, assim dificuldades ocorridas nesta fase podem gerar problemáticas na identidade do individuo e intervir na sua capacidade de se relacionar como casal.

O casal seria então resultante de forças opostas, a individualidade de cada um e a conjugalidade construída.  Assim parece que Margot teve problemas na constituição de sua identidade o que lhe acarretou dificuldades num vinculo duradouro de intimidade genuína de casal.

A capacidade de luto dela, na qual deveria experienciar uma vivência de solidão não pode ser feita, assim Margot tem a necessidade de estar em um relacionamento, não podendo estar “solteira” ou “fora de um avião” em momento algum. O luto seria um momento de pausa, reflexão e em momento algum ela se permite isso, não gerando um amadurecimento pessoal, nem encerramento de processo, o que a deixa presa em certa “repetição”, como se apaixonar pelo vizinho, que mora na mesma rua, também ligado ao trabalho autônomo e de personalidade a Lou.

Sobre o Autor:

Mariana Pavani – é Psicóloga Clínica, formada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

Referências:

FREUD, S. (1905). Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade. Ed. Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago. 

GREEN, A. (1988). Narcisismo de Vida, Narcisismo de Morte (C. Beliner, Trad.). São Paulo: Escuta.

LAMANNO, V. L. C., Repetição e Transformação na Vida Conjugal (1994)

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