Resenha do Filme Sonata de Outono

Resenha do Filme Sonata de Outono
4.2           Avaliação 4.20 (5 Avaliações)
(Tempo de leitura: 6 - 12 minutos)

Resumo: Esse texto é uma resenha crítica do filme Sonata de Outono, tendo como embasamento para discussão a teoria da Psicanálise. O filme retrata a difícil relação entre uma filha e sua mãe, ou seja, de acordo com o pensamento lacaniano, a construção do amódio nos relacionamentos humanos. As seções da resenha, exposição, desenvolvimento e recapitulação, fazem referência aos três movimentos de uma sonata. Na narrativa, a movimentação e o relacionamento das personagens ficam marcados nesses três tempos.

Palavras-chave: Amódio, Relação Parental, Conflito Edipiano.

1. Exposição

Sonata de Outono é um filme que deve ser assistido por todos que se interessam por relacionamentos humanos. O diretor Bergman produziu uma grande obra de arte em apenas uma hora e quarenta minutos. A história é sobre o desejo de ser amado e todas essas implicações em um relacionamento, assim como as tensões inerentes ao amor, tais como raiva, ódio, inconformidade, angústia, sofrimento e solidão. O filme segue a fluidez e o ritmo de uma sonata, em três movimentos. Ele inicia leve com a exposição, vai ficando tenso, pesado no desenvolvimento e finaliza com a recapitulação.

O enredo começa apresentando os personagens que irão compor a narrativa. Eva, uma mulher calma, reservada e educada, está escrevendo uma carta para sua mãe, Charlotte, que acaba de sofrer a perda de seu companheiro. Eva a convida para passar uns tempos na casa habitada por ela e o marido.

Assim que Charlotte chega, Eva acomoda-a em um quarto de hóspedes e percebe-se que a mãe é bem diferente da filha. Eva é tímida, aparentando um quê de insegurança, enquanto a mãe fala muito. Charlotte começa a descrever todos os detalhes de quando estava cuidando de seu companheiro, apresentando sentimentos de repúdio, nojo e sofrimento enquanto estava no hospital, aguardando por sua morte. Ao final, ela conclui dizendo "Só fiquei tagarelando sobre minha vida". Somente após falar sobre suas angústias é que ela pergunta se a filha está bem. Eva aproveita para dizer que está cuidando de Helena, sua irmã, que está vivendo na casa e ansiosa para ver a mãe. O semblante de Charlotte se modifica e demonstra grande insatisfação. A filha, no intuito de confortar a mãe, responde: "Eu tenho alguém para cuidar", como se a irmã doente preenchesse um vazio.

Eva vai preparar o jantar e Charlotte fala sozinha no quarto enquanto fuma, perplexa diante do fato de ter que rever Helena. Percebe-se que ela tem fixação pela fase oral. Ela fala sobre si mesma o tempo todo e demonstra pouco interesse em escutar a filha. O que importa no mundo são seus problemas, a morte do companheiro e seus concertos de piano. Sua personalidade é etnocêntrica, egoística. Ela menciona sozinha no quarto "Me sentir culpada, sempre de consciência pesada", referindo-se ao fato de ser obrigada a rever a filha mais nova, Helena, que é portadora de uma doença que limita os movimentos do corpo, por isso, vive acamada e é totalmente dependente de Eva. Isso desequilibra Charlotte. No entanto, ao entrar no quarto para visitar Helena, torna-se uma atriz, sorridente, aparentando alegria por vê-la. Conversa, acaricia a filha, toca-a, diz que ela está bonita.

2. Desenvolvimento

Logo após o jantar, por insistência da mãe e do marido, Eva vai até o piano para tocar. Percebe-se a insegurança da filha e o receio de reprovação da mãe, evitando aceitar o convite. Ela inclusive se desculpa por não saber tocar piano. Depois que toca, a mãe começa a destrinchar cada detalhe considerado fraco e vê-se o rosto de Eva com grande tristeza e angústia. Ela demonstra querer fazer seu melhor para agradar a mãe, porém é uma tarefa impossível.

Durante a noite, o casal e Charlotte veem algumas fotos da família, situação em que descobrimos que Eva e o marido tiveram um filho e que este morreu afogado em um acidente, pouco antes de completar quatro anos. Eva deixa o recinto, e Charlotte e o genro conversam sobre o período em que Eva foi mãe. De acordo com o marido, foi o momento mais feliz da vida dela, em que ela realmente amou alguém.

Todos se deitam para dormir, porém de madrugada, Charlotte tem um pesadelo e se levanta. Eva logo a procura na sala, para saber se a mãe está bem. As duas começam a beber vinho e Eva cria coragem para ser honesta com a mãe. Ela pede para ser escutada, dizendo: "Estou meio embriagada, mas só assim consigo falar. Quando eu não disser mais nada por vergonha, você poderá explicar e eu ouvirei e entenderei como eu sempre fiz." Eva então fala de seus reais sentimentos e sensações em relação às atitudes da mãe durante sua infância e adolescência, apontando a frieza e o desinteresse dela para com ela, a irmã e o pai. Charlotte viajava muito a trabalho, às vezes durante meses, e deixava o pai cuidando dela. Isto lhe dava um vazio imenso, uma dor insuportável, pois ela desejava a aprovação da mãe e seu amor, que nunca existiram. Ela menciona: "E aí você saía. Eu achava que ia morrer. Isso dói tanto... Como vou suportar tanta dor?", descrevendo sua infância miserável, sem o amor da mãe. Para Freud, na conferência XXXIII sobre feminilidade (p. 5), aqui está a visão da psicanálise para a dor de Eva:

Para um menino, sua mãe é o primeiro objeto de seu amor, e ela assim permanece também durante a formação do complexo de Édipo e, em essência, por toda a vida dele. Para a menina, também, o seu primeiro objeto deve ser sua mãe (e as figuras da babá e da nutriz, que nela se fundem).

Eva chega à adolescência pontuando um verão em que passou ao lado da mãe e do pai, que para Charlotte havia sido muito bom para todos. No entanto, descobrimos que a mãe tinha parado de tocar por estar com fortes dores nas costas, o que impossibilitava uma execução perfeita do piano. Isto reverbera em situações de extrema angústia para Eva: "Você dirigia toda sua energia reprimida para mim." E é neste período que Eva compreende seu relacionamento com a mãe: "Mas uma coisa eu entendia, você jamais me amaria ou me aceitaria como eu era."

Há um misto de amor e ódio entranhados no relacionamento entre mãe e filha. Eva diz: "Eu não percebia que a odiava, pois achava que nos amávamos. Eu não podia odiá-la, e meu ódio se tornou um medo insano. Eu tinha pesadelos. Eu roía as unhas. Eu arrancava tufos de cabelos...". Eva tenta abafar seus sentimentos de ódio, canalizando-os para outras ações, como roer unhas e arrancar os cabelos,  pois a falta do amor materno lhe doía, lhe angustiava. Amor e ódio ou amódio, termo cunhado por Lacan, são sentimentos que se complementam, caminham lado a lado nas relações:

Não estou ali, afinal de contas, para o seu bem, mas para que ele ame. Isso quer dizer que devo ensiná-lo a amar? Certamente, parece difícil elidir essa necessidade — quanto ao que vem a ser amar e o que vem a ser o amor, há que dizer que as duas coisas não se confundem. Quanto ao que é amar e saber o que é amar, devo ao menos, como Sócrates, poder dar testemunho de que sei algo sobre isso. Ora, se entrarmos na literatura analítica, é precisamente isso que é menos dito. Parece que o amor, no seu acoplamento primordial, ambivalente, com o ódio, e um termo evidente por si (LACAN, 1992, p. 23).  

A mãe se mostra surpresa, alheia a todas as verdades despejadas por Eva até o momento. Charlotte salienta: "Quanto ódio! Por que você nunca me disse isso?" E Eva retruca: "Porque você nunca escutou." A falta de amor maternal e o desejo de obtê-lo a qualquer custo desenvolve em Eva uma neurose. Em dado momento, Charlotte consegue falar e expor seu desconforto no papel de mãe, que para ela pareceu sempre ser um fardo. Ela, quando filha, nunca soube o que era ser amada, querida: "Eu não sabia nada das coisas ligadas ao amor, carinho, contato, intimidade, calor. Só através da música eu podia expressar meus sentimentos." Charlotte não aprendeu a amar, a ser mãe. Ela também é um sujeito constituído pela falta de amor.

Analisando o relacionamento de amódio vivenciado pelas duas, Eva o resume da seguinte maneira: "Mãe e filha... que mistura terrível de sentimentos, confusão e destruição. As cicatrizes da mãe são passadas para a filha. As falhas da mãe são pagas pela filha. A infelicidade da mãe é a infelicidade da filha." Freud, na Conferência XXXIII, p. 9, esclarece essa ambivalência no relacionamento maternal da seguinte forma:

Uma poderosa tendência à agressividade está sempre presente ao lado de um amor intenso, e quanto mais profundamente uma criança ama seu objeto, mais sensível se torna aos desapontamentos e frustrações provenientes desse objeto; e, no final, o amor deve sucumbir à hostilidade acumulada. Ou então deve ser rejeitada a ideia de que haja uma ambivalência inicial básica como esta nas catexias objetais, podendo ser assinalado que é a natureza especial da relação mãe-filho que leva, com igual inevitabilidade, à destruição do amor da criança [...]

3. Recapitulação

Depois desta madrugada de exteriorizações e honestidades, Charlotte parte às pressas da casa da filha. Eva se mostra deprimida, menciona vontade de se matar, e que não o faz por ter Helena e o marido para cuidar. Na última cena, ela escreve à mãe, pedindo-lhe desculpas pelas palavras ditas naquele dia fatídico, oferece reconciliação e demonstra desejo de recomeçar. Essa atitude é frustrante para o telespectador, pois Eva ter conseguido se abrir com a mãe aparentava ser uma marco, uma libertação, a possibilidade de curar as feridas, de ser escutada. Contudo, o desejo incansável pela aceitação e amor da mãe não têm limites. Para Eva, ela só vai se tornar um sujeito que ama e que merece amor, quando for amada pela mãe. Segundo Freud, na Conferência XXXIII, p. 15-16, isso traz estruturas psicológicas não resolvidas para ela, já que: 

A identificação de uma mulher com sua mãe permite-nos distinguir duas camadas: a pré-edipiana, sobre a qual se apoia a vinculação afetuosa com a mãe e esta é tomada como modelo, e a camada subsequente, advinda do complexo de Édipo, que procura eliminar a mãe e tomar-lhe o lugar junto ao pai. Sem dúvida justifica-se dizermos que muita coisa de ambas subsiste no futuro e que nenhuma das duas é adequadamente superada no curso do desenvolvimento. A fase da ligação afetuosa pré-edipiana, contudo, é decisiva para o futuro de uma mulher: durante essa fase são feitos os preparativos para a aquisição das características com que mais tarde exercerá seu papel na função sexual e realizará suas inestimáveis tarefas sociais. É também nessa identificação que ela adquire aquilo que constitui motivo de atração para um homem; a ligação edipiana deste à sua mãe transfigura a atração da mulher em paixão [...]

4. In(conclusões)

O filme deixa muitas possibilidades para reflexão, dentro e fora da história. Pode-se remeter o relacionamento de Eva com a mãe a várias situações que muitos sujeitos, talvez, já tenham vivenciado ou compartilhado nas relações familiares ou sociais.

Ainda fazendo uma articulação com o filme, questiona-se: Quantos Evas já existiram e ainda existem em busca do amor de suas mães? Quando o Complexo de Édipo se estabelece de forma conflituosa, o sujeito vai carregar por toda a vida marcas significantes que os acompanharão em suas relações objetais. Essas marcas terão reflexo nas relações transferenciais do sujeito. Nas palavras de Kupfer, que define a transferência na Psicanálise: 

Entendida como a repetição de protótipos infantis vivida com uma sensação de atualidade acentuada, nada impede que a transferência se dirija ao analista ou a qualquer outra pessoa (KUPFER, 1998, p. 88).

E acrescenta:

Essa concepção de transferência [...] amplia a noção de que um clichê (estereótipo calcado na figura dos pais) é transferido para figura do analista e mestre. O importante é fixar a ideia de que o desejo inconsciente busca aferrar-se a formas (o resto diurno, o analista, o professor) para esvaziá-las e colocar aí o sentido que lhe interessa. Transferir é então atribuir um sentido especial àquela figura especial do desejo (KUPFER, 1998, p. 91).

Diante das vivências de Eva, infere-se que há na personagem uma angústia aniquiladora ao depositar na sua mãe um valor objetal que não é correspondido. Ela acaba levando isso para a vida social, pois não consegue se amar. Nas palavras de Eva, ela afirma que "É preciso aprender a viver. Eu treino todos os dias. Meu maior obstáculo é eu não saber quem sou. Vou tropeçando às cegas. Se alguém me amar do jeito que eu sou talvez eu finalmente me arrisque a olhar para mim mesma."

Na esteira desse pensamento, para Eva muitas vezes a transferência não se estabelece em suas relações, ou pior, a contratransferência impossibilita a construção de laços afetivos.

É uma seara para reflexões no âmbito da Psicanálise e nas relações sociais do cotidiano. Os sujeitos estão em incessante busca de amor, sujeitos da falta e que desejam sempre. Afinal, se não desejarem de alguma forma, como continuarão a viver?

Sobre a Autora:

Flávia Cristina Martins de Oliveira - Pós-graduada em Psicanálise Clínica (CEAPP), doutoranda em Língua e Cultura (UFBA), mestre em Língua e Cultura (UFBA), pós-graduada em Língua Inglesa, Gestão Escolar, graduada em Língua Inglesa/Portuguesa. Atua como pesquisadora em Linguística Aplicada e em Psicanálise.

Referências: 

BERGMAN, Ingmar. Sonata de Outono. Suécia, Alemanha e França.  1978. 99 min.

FREUD, Sigmund. Novas conferências introdutórias sobre psicanálise: Conferência XXXIII. Disponível em: <cappf.org.br/tiki-download_wiki_attachment.php?attId=624...y> Acesso em: 09 maio 2015.

KUPFER, Maria Cristina. Freud e a educação: o mestre do impossível. São Paulo: Ed. Scipione, 1989.

LACAN, O seminário, livro 8: a transferência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Seminário original de 1960-1961), 1992.   

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